Quinta, 9 de Setembro de 2010      
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 A nova relação com os liderados  
Autor(a): Roberto de Oliveira Loureiro


Alguns administradores insistem em manipular o ser humano


A literatura administrativa desde os tempos de Taylor e Fayol até os nossos dias, já abordou um extenso elenco de temas. Outras áreas, que visam paralelamente a administração, como é o caso da sociologia, psicologia, etc... também tem marcado sua presença no mesmo ritmo e na mesma quantidade.

Para o futuro, fala-se muito em uma administração participativa. Particularmente acredito nisso. Mas qual seria o sentido exato dessa participação? Qual seria o seu real envolvimento? Quais seriam os seus limites?

Por outro lado, já existem em muitas empresas os Círculos de Controle de Qualidade (CCQ), via de regra inspirados num senso de equipe, onde o comprometimento e a atuação grupal tendem a possibilitar, de forma mais eficiente, a conquista de bons resultados. Resultados, porém, do ponto de vista empresarial, não necessariamente individual.

Dentro de uma outra linha, ainda se fala e se escreve muito sobre: administração de tempo; planejamento estratégico; análise transacional; eficiência x eficácia; comunicação; administração por objetivos; racionalização dos métodos de trabalho; motivação; etc..etc..etc..
Evidentemente que são temas atraentes, palpitantes, polêmicos, e que devem fazer parte do currículo de qualquer administrador.

Recentemente, a tônica dos principais estudos e análises concentrou-se mais no que se refere aos aspectos inovadores da administração: aos empreendedores, é tecnologia; aos novos rumos da informática; as descontinuidades tecnológicas; a curva “S”; temas que nada mais são do que reflexos do imperativo tecnológico que aí está, nos impondo uma nova postura profissional, isto é: ou nos atualizamos e aprendemos a conviver com as mudanças, basicamente impulsionadas pela tecnologia, ou então morremos (do ponto de vista empresarial, é claro!)

Ocorre, porém, que na medida em que evoluímos tecnicamente e cientificamente, o ser humano, principal recurso das organizações, parece ficar meio de lado, ou seja, à margem desse desenvolvimento.
Em meio a todo este contexto, não podemos perder de vista este potencial humano, agente propulsor e responsável pela operacionalização e consecução de todos os objetivos-fins, estipulados pela própria organização.

Alguns pseudo-administradores ainda insistem em aplicar “técnicas” que visam simplesmente a manipulação do ser humano. Outros acreditam que o trabalhador, independente do seu nível hierárquico profissional ou intelectual, ainda possa “vestir a camisa da empresa”, caracterizando-se assim por um contínuo comprometimento unilateral, para não dizer, em alguns casos, submissão por completo.
Não concordo e nem percebo as coisas desta forma.

Acredito que não haja mais “espaço” para um posicionamento assim, muito embora tenha consciência de que ele ainda exista e seja praticado.

Já é hora de possuirmos uma visão mais ampla e holística de tudo o que nos cerca.
Acredito, sim, em um relacionamento mais consciente, maduro e responsável entre líderes e liderados.

Acredito na negociação. Não em uma negociação camuflada, caracterizada pelo tipo ganha x perde; mas sim na negociação que propicia vencedores de ambos os lados.

O ser humano está cada vez mais envolvido em negociações. O próprio sistema social o conduz a isso.
Ignorar esta realidade seria como pedir para uma criança que passou o dia inteiro a frente de um micro-computador, “brincando” com programas, que ela contasse carneirinhos para dormir à noite.
Isso sim é pura utopia.

O mesmo está ocorrendo no meio empresarial. Esta ingenuidade, com certeza, está acabando. Deve acabar.

Por que então não visualizar o óbvio?

Por que não enxergar o problema pela sua forma mais simples?

O que realmente motiva o homem ao trabalho é um “pool” de fatores (benefícios) que, devidamente equilibrados e combinados entre si passam a provocar resultados concretos e mensuráveis. Entretanto, o mais importante, na minha opinião, é o desenvolvimento de uma atividade em que haja satisfação, prazer, realização pessoal, onde as dificuldades representem desafios e não obstáculos intransponíveis, que provoquem nas pessoas frustrações constantes.

Isto é mudar o enfoque, é mudar a postura, é mudar as regras do jogo.

Em síntese: “o homem certo no lugar certo”.

Somente assim as pessoas terão condições de superar desafios e quebrar limites.

É bem provável que o rei do futebol - Pelé – jamais fosse o rei do golfe; Picasso, o “papa” da música; Carlos Drummond de Andrade, “expert” das finanças.

Quando muito, seriam profissionais com performances medianas, em seus respectivos campos de atuação.

Evidentemente que um treinamento sério e profissional poderia contribuir positivamente para uma melhora, mas não seria a solução definitiva. O pleno exercício das ações não seria obtido, pelo menos a curto prazo.

Fazer aquilo que se gosta e que se acredita, é um pré-requisito fundamental para o sucesso empresarial.

Infelizmente a maioria das pessoas ainda não se apercebeu disso. Algumas já perceberam, mas outros fatores inibem a sua aplicação.

Enquanto isso, os conflitos nas organizações são constantes.
A estatística confirma que um dos índices que mais contribuem para o “turn-over” empresarial é o mau relacionamento e os choques freqüentes entre líderes e liderados.
E isto é grave, deve nos preocupar.

Os “comandantes” devem entender que não basta apenas cobrar resultados; é necessário criar condições para que eles ocorram.

Uma pessoa mal-alocada profissionalmente terá, como já disse, problemas de desempenho.
Se em meio a este quadro, o “profissional” tiver a infelicidade de se relacionar com uma chefia também mal-preparada, é quase certo que será taxado de incompetente, principalmente por um observador mais precipitado e menos atento.

Mas isto seria apenas uma ilusão. Uma ilusão de ótica.

O seu mau desempenho é, em última análise, o efeito de toda uma energia erroneamente direcionada.

Não existem maus funcionários, existem sim más lideranças.

Como disse no início, a literatura administrativa conquistou um espaço considerável nas estantes.
É bem verdade que ainda muito será escrito e divulgado, pois vivemos num momento de transição e de mudanças, o que praticamente nos convida a uma reflexão constante.

Esta narrativa pode, num primeiro momento, parecer idealista, temperada com uma significativa dose de filosofia.

Mas foi graças a aparentes filosofias ocorridas no passado que hoje podemos voar em luxuosas aeronaves, se comunicar com o outro lado do mundo a partir da simples discagem de alguns números, colocar na palma da mão um aparelho de TV...

É como disse certa vez o biólogo Albert Szent-Gyõrgyl: “Uma descoberta consiste em ver o que todos viram e pensar o que ninguém pensou”.




Roberto de Oliveira Loureiro
Professor de Graduação e Pós-Graduação da Fundação Armando Álvares Penteado – FAAP, Universidade Mackenzie, Faculdades Associadas de São Paulo – FASP e Universidade São Judas Tadeu
E-mail para contato: robertloureiro@uol.com.br

 
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