Quinta, 9 de Setembro de 2010      
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 O CASO DA BABÁ HELENA  
Autor(a): Roberto de Oliveira Loureiro
Uma reflexão sobre a nossa empregabilidade


Todo pai e toda mãe que possui filhos pequenos e que desenvolve um trabalho externo, acaba sentindo, na pele, a dor e a grande responsabilidade de deixar e confiar a educação de seu filhos com outra pessoa.

As preocupações são muitas ...

Com relativa freqüência, presenciamos na imprensa situações bárbaras que crianças indefesas sobrem nas mãos de pessoas inescrupulosas.

Na verdade, neste caso, não é só o compromisso pela educação dos filhos que está em jogo. Muitos outros fatores acabam ocorrendo, como por exemplo os permanentes cuidados em relação à higiene, a correção de posturas inadequadas, a atenção e carinho praticamente em tempo integral, zelo pela segurança, disciplina e respeito aos horários, cuidados quanto à alimentação etc.

Passei por esta experiência.

Quando eu e minha esposa decidimos começar o processo seletivo para o recrutamento de uma babá, ficamos bastante preocupados. Esta preocupação deu-se nem tanto pela contratação propriamente dita, uma vez que a quantidade de pessoas interessadas e disponíveis no mercado nos oferecia diversas opções. A preocupação maior ficou por conta de identificar alguém que pudesse nos substituir. Tarefa quase que impossível se você considerar uma certa dose de ciúmes e pelo senso, enganoso é verdade, de nós, como pais, nos considerarmos insubstituíveis. Crença comum para a grande maioria dos casais.

Como todo o processo seletivo, sempre há uma situação de risco, porém, neste caso, eventuais erros deveriam ser reduzidos ao máximo.


Fizemos algumas entrevistas até que encontramos Helena. Pessoa de vida simples que mostrou-se bastante interessada na vaga e na oportunidade de tornar-se uma babá.

Helena não possuía um projeto de vida e carreira bem definidos. Estando em disponibilidade, seu objetivo maior era o de voltar ao mercado de trabalho como forma de poder, por conta do seu salário, ajudar no orçamento doméstico reforçando a sua renda mensal familiar e contribuir na educação de seu filho.

Helena, que já havia desenvolvido outras atividades profissionais ao longo da vida, candidatou-se à vaga sem ter muita expertise na função. Por outro lado, o fato de já ter sido mãe por duas vezes e, mais recentemente, avó, conferiam a ela uma experiência prática interessante.

Após termos concluído algumas entrevistas, eu e minha esposa decidimos, então, em “fechar” com a Helena. Havia ainda uma última e definitiva prova neste processo seletivo, ou seja, ela poder encantar o seu principal cliente – nosso filho Fernando - razão maior e principal da sua contratação. Como Helena também saiu-se bem neste teste, foi contratada.

Os fatores críticos de sucesso que analisamos e que acabaram declinando pela contratação da Helena, foram: sua amorosidade, sua pré-disposição em rapidamente aprender as tarefas de uma babá, o que era novo para ela enquanto atividade profissional, flexibilidade de horário (principalmente no período da manhã), conciliação de suas funções de babá, com outras atividades de caráter doméstico, preocupação quanto à higiene pessoal, senso de disciplina, de responsabilidade e de ética, habilidade culinária e, claro, uma química que não demorou para acontecer entre ela e o Fernando.

Em nenhum momento exigimos da Helena algo fora destes padrões. Aliás, foi Helena que nos fez uma única exigência: não queria ser registrada como doméstica, mas sim como babá. Para muitos uma simples questão semântica e de pouca importância, mas, para ela, uma recompensa psicológica de altíssimo valor. Fizemos seu desejo sem nenhuma restrição.

Helena começou a trabalhar e a desenvolver suas atividades profissionais ainda com a presença de minha esposa, que gozava de seus últimos dias da licença maternidade. Esta transição foi interessante pois possibilitou à minha esposa ministrar um treinamento on the job , momento em que pode observar e avaliar a performance da babá já numa situação prática de trabalho, provocar um Kaizen em sua conduta e de disseminar e reforçar os hábitos de nossa casa.

Helena foi bastante receptiva a toda esta situação.

Já tendo passado pelo estresse natural que todo processo seletivo acaba provocando, agora, já contratada, permanentemente demonstrava interesse por suas funções e procurava fazer de tudo para não nos decepcionar. Simultaneamente, procurava também reforçar a idéia de que a nossa decisão de escolha sobre a sua contratação, havia sido a mais acertada possível.

Com o passar do tempo pude constatar que as atividades diárias, desenvolvidas por Helena, eram muito repetitivas o que fez dela, em um curto período de tempo, uma especialista nas funções que se desempenhava.

Por incrível que possa parecer, tal fato me remeteu a Karl Marx , que em seu famoso “O Capital” (1873), já fazia a seguinte constatação:“É desde logo claro que um trabalhador, o qual executa a sua vida inteira uma única operação simples, transforma todo o seu corpo em órgão automático unilateral dessa operação e portanto necessita para ela menos tempo que o artífice, que executa alternadamente toda uma série de operações. A repetição contínua da mesma ação limitada e a concentração da atenção nela ensinam, conforme indica a experiência, a atingir o efeito útil desejado com um mínimo de gasto de força”.

Confesso que fiquei satisfeito e confortável com o fato de que Helena vinha atendendo aos objetivos da sua contratação.

Independente de um ou outro ponto de diminuto conflito ou discórdia na nossa relação empregador x empregado, a avaliação de desempenho de Helena era bastante positiva. Em outras palavras, mesmo contrariando alguns clássicos personagens da história da Administração, como Frederick W. Taylor e Henry Ford , por exemplo, que preconizavam o fato do trabalhador não precisar pensar, pois dele o que se exigia eram apenas seus músculos, Helena se deparava com um bom desempenho, o que até me trouxe alguns problemas na medida em que foi, por diversas vezes, sondada pela concorrência (entenda-se outros casais, moradores do condomínio, que também necessitavam de uma boa babá para confiar a guarda e a educação dos seus filhos).

Na verdade, Helena havia desenvolvido novos conhecimentos frente às exigências impostas pelo seu cargo.

Estes conhecimentos eram necessários para o exercício de suas funções.

Confesso que minha esposa e eu aprendíamos também com Helena, pois era um novo ser pensante que passava a desfrutar do nosso convívio.

A família, enquanto um organismo social, é também uma empresa, claro que guardadas as devidas proporções,

Conclusão esta em perfeita sintonia com a colocação de Peter Senge (1990),

sobre as Organizações de Aprendizagem: “as organizações do futuro serão aquelas capazes de alinhar as responsabilidades e
capacidades de aprender de cada indivíduo e, talvez o mais importante ainda, onde existe a possibilidade de aprender e crescer em todos os níveis de sua estrutura”.

A especialização conseguida por Helena também conferia a ela uma certa dose daquilo que é chamado de Ócio Criativo.

Ócio não no sentido pejorativo da palavra, que normalmente está associado a um relaxamento, a um vagar inútil, sem utilidade ou préstimo. Não também o ócio pelo o ócio, mas, isto sim, um ócio no sentido de proporcionar um tempo para reflexão e análise de “coisas” que são feitas por intermédio do nosso “piloto automático” e que às vezes, por conta de paradigmas enraizados que carregamos a longo da vida, não são questionados (apenas repetidos), ócio no sentido de se permitir um tempo para dar vazão à sua criatividade, ócio para o aprendizado contínuo, ócio para os relacionamentos com as outras pessoas, ócio para si mesma.

Em tempo, foi Domenico De Masi que cunhou a expressão Ócio Criativo. Segundo De Masi “a plenitude da atividade humana é alcançada somente quando o trabalho, o estudo e o lazer se misturam em nossas vidas, isto é quando nós trabalhamos, aprendemos e nos divertimos, tudo ao mesmo tempo”.

Se imaginarmos o trabalho como um fardo ou praga divina que se abateu sobre nós, a situação realmente parece impossível, porém, dentro da linha de pensamento proposto por De Masi, o trabalho ganha uma nova forma e dimensão.

Como a vida é um processo dinâmico, um fato novo aconteceu em nossa família – a chegada do Guilherme - meu filho mais novo.

Quando o Guilherme nasceu, o Fernando já estava com três anos. Em outras palavras, Helena agora possuía mais um cliente. Além de continuar encantando o mais velho, precisava também encantar o mais novo. Neste sentido, Helena precisou desenvolver mais uma importante competência: negociação.

Negociação em múltiplos sentidos.

Negociação do tempo, pois os horários de banho, refeição, medicação, dedicação aos “pequenos”, às suas tarefas cotidianas etc, precisavam ser ajustados a este novo cenário, negociação no sentido do relacionamento interpessoal (comportamento), pois o ciúme não demorou a se fazer presente no mais velho.

O trabalho aumentou consideravelmente para a Helena. Da mesma forma, os seus desafios também aumentaram. Por outro lado, quando o ser humano quer e está motivado, ele consegue se superar e acaba por encontrar uma forma de administrar tudo isto. Foi o que aconteceu com Helena.

O tempo foi passando e as crianças foram crescendo ...

Agora os dois já passavam metade do dia na “escolinha”. Fernando já conseguia desenvolver uma série de atividades praticamente sozinho, como por exemplo tomar seu banho, escovar os dentes, se alimentar...
O Guilherme caminhava na mesma direção...

Conclusão: o cargo da Helena começou a se esvaziar. Aquela mesma dor que há cinco anos atrás sentimos para não errar na contratação, agora sentíamos em dobro em função de ter que realizar o seu desligamento. Acredito que todo o desligamento é um processo doloroso, pois comumente ele vem carregado de muito sentimento e muita emoção. Sentimento e emoção são características da espécie humana e devem ser consideradas .

Entretanto, parece que a nossa vida pessoal e profissional é assim. Temos o nosso tempo de iniciar numa organização, desenvolver uma atividade e sair. Sair por várias razões. Seja por conta de um ciclo que se completou, uma reestruturação, a busca de novos desafios, novas experiências, uma melhor qualidade de vida, enfim, cada um tem suas razões e uma história.

O importante é ter uma história e acreditar nela.

Para “matar” um pouco a saudade, principalmente das crianças, Helena nos visita com relativa freqüência. Entendo que para ela, isto representa como se ainda continuasse a nossa babá. Atitude esta que me faz refletir sobre duas coisas. Primeiro sobre àquelas pessoas que, às vezes, por terem sido forçadas a deixar a empresa, continuam a exercer o mesmo ritual que faziam antes da sua demissão, talvez como forma inconsciente de defesa e negação do fato em si.

Este talvez seja o pior dos ócios – o ócio da sensação da inutilidade profissional.

No contra ponto, uma leitura positiva: Helena tem vontade de nos visitar, fato este que, via de regra, parece não ocorrer com freqüência nas “grandes empresas”.

Vivemos numa sociedade em que é muito complicado e difícil ficar sem o nosso “sobrenome empresarial”.

Caso a Helena queira se recolocar como babá, terá sempre as minhas referências e recomendações.

O que mais me preocupa são seus novos empregadores, e as possíveis exigências que poderão fazer. Neste momento Helena estará pondo à prova e testando sua empregabilidade .

Eu não precisava de uma babá que falasse três idiomas, tivesse curso superior, experiência internacional, soubesse informática, “mexesse” na internet, reunisse estatísticas recentes sobre os BRIC e que tivesse carta de habilitação, pois, se assim fosse, nestas condições, Helena com certeza não teria sido contratada. Porém, dependendo de para quem ela possa ir trabalhar, algumas das qualificações acima poderão ser exigidas e ser um divisor de águas entre os pretendentes à vaga.

A empregabilidade é algo assim. Às vezes você passa a vida toda sem se preocupar com ela e por acreditar que nunca irá precisar, você não desenvolve.

No verão não usamos cobertores.
É quando o inverno chega que você sente a sua falta.
Com a empregabilidade é a mesma coisa. São nos momentos de uma demissão ou de uma transição profissional, que podemos avaliar o quanto que nós ficamos desatualizados e “vendidos” em um mercado de trabalho cada vez mais competitivo, marcado por um cenário de mutações constantes.

É muito fácil ficar “fora do jogo” hoje no mercado de trabalho, daí a necessidade de uma atualização constante. Claro que esta atualização deve estar alinhada com um projeto de vida e carreira, caso contrário poderá representar perda de energia, tempo e recursos.

 
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