Quinta, 9 de Setembro de 2010      
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 O MUNDO DO TRABALHO E O INCREMENTO DO ÓCIO CRIATIVO UM PROCESSO DE REESTRUTURAÇÃO PRODUTIVA  
Autor(a): Roberto de Oliveira Loureiro


“O objetivo da vida não é o domínio sobre os outros,
mas a felicidade no viver.

E ainda assim, muitos
governantes educam os cidadãos para a guerra,
mas descuidam em educá-los para
o ócio e para a paz”.


Domenico De Masi



Ócio e lazer sempre foram temas opostos e comumente rejeitados no mundo corporativo.

Por outro lado, para muitos, trabalho lembra tortura, até porque ambas as palavras possuem o mesmo radical e fazem parte do imaginário popular, enquanto que o ócio e o lazer sempre estiveram associados à idéia de inatividade, indolência, preguiça, má vontade, vagabundagem, além de outras conotações pouco oportunas.

Vale lembrar que ócio e ociosidade são conceitos completamente diferentes.

Neste nível de percepção, estar em movimento, ou seja, movimentando apenas os músculos, caracteriza uma ação positiva, politicamente bem aceita e correta, pois parece sugerir e impor um esforço puramente físico para a consecução de um objetivo.

A partir de uma retrospectiva sócio-antropológica, o ser humano, enquanto trabalhador, já foi considerado sobre várias óticas nas teorias administrativas, assumindo, portanto, vários papéis.

O quadro abaixo oferece um resumo e uma retrospectiva das principais teorias administrativas.
Ênfase
Teorias Administrativas
Enfoque Principal
Nas Tarefas
Administração Científica
Racionalização do trabalho no nível operacional
Na Gerência
Escola Clássica

Definição do papel gerencial
Nas Pessoas
Teoria das Relações Humanas
Organização informal
Na Estrutura
Teoria da Burocracia
Racionalidade organizacional
No Ambiente
Teoria Estruturalista
Abordagem de sistema aberto
Na Cultura
Desenvolvimento Organizacional
Análise da cultura organizacional
Nos Processos
Teoria de Sistemas
Sinergia entre as partes
Na Tecnologia
Teoria da Contingência
Imperativo tecnológico
No Mercado
Adhocracia
Cenário em constante mutação
No Conhecimento
Organizações de Aprendizagem
Conhecimento humano


O trabalhador no início do processo de industrialização era considerado um ser de comportamento previsível. Incentivos financeiros adequados, constante vigilância e treinamentos específicos para o exercício de micro funções eram ações consideradas suficientes para garantir uma boa produtividade. Não por acaso, surge nessa época à expressão mão-de-obra, ou seja, o trabalhador comum não precisava pensar, pois à luz dos principais padrões e exigências da época, basicamente, era simplesmente o seu esforço físico o produto mais desejado.

O planejamento, ações de caráter mais criativo e as inovações, eram conferidas a uns poucos profissionais, normalmente ocupando posições de destaque na hierarquia organizacional.

Do início do século XIX até hoje assistimos a transformações importantes no mundo do trabalho.

Novas formas de organizar apareceram e a natureza do próprio trabalho se modificou. Mesmo assim o trabalho, enquanto uma construção humana, continua mantendo um lugar importante em nossas vidas em função da importância e do tempo que a ele dedicamos.

Centrado na idolatria do trabalho, o sociólogo italiano Domenico De Masi propõe um novo modelo de relações baseado na simultaneidade entre trabalho, estudo e lazer, no qual os indivíduos são educados a privilegiar a satisfação de necessidades radicais, como a introspecção, a amizade, o amor, as atividades lúdicas e a convivência.

Para De Masi a plenitude da atividade humana é alcançada somente quando o trabalho, o estudo e o lazer se misturam em nossas vidas, isto é, quando nós trabalhamos, aprendemos e nos divertimos tudo ao mesmo tempo, por intermédio de um processo sinérgico e integrado.

Este processo envolvendo trabalho, estudo e lazer, De Masi denomina de Ócio Criativo.

O próprio trabalho deveria representar e conter uma forma de Ócio Criativo, na medida em que o resultado dele constituísse em realização. A própria mercadoria - produto final - ganharia mais valor e, possivelmente, seria mais bela, por conta de seu embasamento estético.

Para tanto é necessário repensar a racionalidade ainda presente no ambiente empresarial e na maneira como produzimos. Por conta de expressivas inovações tecnológicas, reestruturação dos processos produtivos e de uma maior capacitação, De Masi afirma que teremos cada vez mais ócio. Ócio não no seu sentido pejorativo, comumente entendido, mas sim um tipo especial de ócio - Ócio Criativo.

É sob estas premissas que De Masi apresenta as bases do seu estudo: Ócio Criativo.

Não se trata de uma verdade absoluta, ao contrário, nele inserem-se vários objetos de pesquisa, dúvidas e, acima de tudo, uma profunda reflexão, a saber:

1) Até que ponto as empresas estão educando seus colaboradores para a prática do Ócio Criativo?

2) Até que ponto o ócio é ainda um tabu a ser “quebrado” junto à mentalidade empresarial vigente?

3) Até que ponto a cultura organizacional inibe o exercício do Ócio Criativo?

4) Até que ponto as premissas de De Masi podem contribuir para o estabelecimento de um novo Modelo de Gestão, de uma nova consciência empresarial e econômica e de um novo Modelo de Sistema-Mundo?

As questões ainda não estão respondidas, ao contrário, caracterizam-se como pontos de angústia e reflexão até porque o modelo gerencial, presente ainda em muitas empresas, parece sinalizar para uma posição contrária – totalmente antagônica.

Mas será que é este o mundo que queremos?

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