“O objetivo da vida não é o domínio sobre os outros,
mas a felicidade no viver.
E ainda assim, muitos
governantes educam os cidadãos para a guerra,
mas descuidam em educá-los para
o ócio e para a paz”.
Domenico De Masi
Ócio e lazer sempre foram temas opostos e comumente rejeitados no mundo corporativo.
Por outro lado, para muitos, trabalho lembra tortura, até porque ambas as palavras possuem o mesmo radical e fazem parte do imaginário popular, enquanto que o ócio e o lazer sempre estiveram associados à idéia de inatividade, indolência, preguiça, má vontade, vagabundagem, além de outras conotações pouco oportunas.
Vale lembrar que ócio e ociosidade são conceitos completamente diferentes.
Neste nível de percepção, estar em movimento, ou seja, movimentando apenas os músculos, caracteriza uma ação positiva, politicamente bem aceita e correta, pois parece sugerir e impor um esforço puramente físico para a consecução de um objetivo.
A partir de uma retrospectiva sócio-antropológica, o ser humano, enquanto trabalhador, já foi considerado sobre várias óticas nas teorias administrativas, assumindo, portanto, vários papéis.
O quadro abaixo oferece um resumo e uma retrospectiva das principais teorias administrativas.
Ênfase | Teorias Administrativas | Enfoque Principal |
Nas Tarefas | Administração Científica | Racionalização do trabalho no nível operacional |
Na Gerência | Escola Clássica | Definição do papel gerencial
|
Nas Pessoas | Teoria das Relações Humanas | Organização informal |
Na Estrutura | Teoria da Burocracia | Racionalidade organizacional |
No Ambiente | Teoria Estruturalista | Abordagem de sistema aberto |
Na Cultura | Desenvolvimento Organizacional | Análise da cultura organizacional |
Nos Processos | Teoria de Sistemas | Sinergia entre as partes |
Na Tecnologia | Teoria da Contingência | Imperativo tecnológico |
No Mercado | Adhocracia | Cenário em constante mutação |
No Conhecimento | Organizações de Aprendizagem | Conhecimento humano |
O trabalhador no início do processo de industrialização era considerado um ser de comportamento previsível. Incentivos financeiros adequados, constante vigilância e treinamentos específicos para o exercício de micro funções eram ações consideradas suficientes para garantir uma boa produtividade. Não por acaso, surge nessa época à expressão mão-de-obra, ou seja, o trabalhador comum não precisava pensar, pois à luz dos principais padrões e exigências da época, basicamente, era simplesmente o seu esforço físico o produto mais desejado.
O planejamento, ações de caráter mais criativo e as inovações, eram conferidas a uns poucos profissionais, normalmente ocupando posições de destaque na hierarquia organizacional.
Do início do século XIX até hoje assistimos a transformações importantes no mundo do trabalho.
Novas formas de organizar apareceram e a natureza do próprio trabalho se modificou. Mesmo assim o trabalho, enquanto uma construção humana, continua mantendo um lugar importante em nossas vidas em função da importância e do tempo que a ele dedicamos.
Centrado na idolatria do trabalho, o sociólogo italiano Domenico De Masi propõe um novo modelo de relações baseado na simultaneidade entre trabalho, estudo e lazer, no qual os indivíduos são educados a privilegiar a satisfação de necessidades radicais, como a introspecção, a amizade, o amor, as atividades lúdicas e a convivência.
Para De Masi a plenitude da atividade humana é alcançada somente quando o trabalho, o estudo e o lazer se misturam em nossas vidas, isto é, quando nós trabalhamos, aprendemos e nos divertimos tudo ao mesmo tempo, por intermédio de um processo sinérgico e integrado.
Este processo envolvendo trabalho, estudo e lazer, De Masi denomina de Ócio Criativo.
O próprio trabalho deveria representar e conter uma forma de Ócio Criativo, na medida em que o resultado dele constituísse em realização. A própria mercadoria - produto final - ganharia mais valor e, possivelmente, seria mais bela, por conta de seu embasamento estético.
Para tanto é necessário repensar a racionalidade ainda presente no ambiente empresarial e na maneira como produzimos. Por conta de expressivas inovações tecnológicas, reestruturação dos processos produtivos e de uma maior capacitação, De Masi afirma que teremos cada vez mais ócio. Ócio não no seu sentido pejorativo, comumente entendido, mas sim um tipo especial de ócio - Ócio Criativo.
É sob estas premissas que De Masi apresenta as bases do seu estudo: Ócio Criativo.
Não se trata de uma verdade absoluta, ao contrário, nele inserem-se vários objetos de pesquisa, dúvidas e, acima de tudo, uma profunda reflexão, a saber:
1) Até que ponto as empresas estão educando seus colaboradores para a prática do Ócio Criativo?
2) Até que ponto o ócio é ainda um tabu a ser “quebrado” junto à mentalidade empresarial vigente?
3) Até que ponto a cultura organizacional inibe o exercício do Ócio Criativo?
4) Até que ponto as premissas de De Masi podem contribuir para o estabelecimento de um novo Modelo de Gestão, de uma nova consciência empresarial e econômica e de um novo Modelo de Sistema-Mundo?
As questões ainda não estão respondidas, ao contrário, caracterizam-se como pontos de angústia e reflexão até porque o modelo gerencial, presente ainda em muitas empresas, parece sinalizar para uma posição contrária – totalmente antagônica.
Mas será que é este o mundo que queremos?
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